sexta-feira, 24 de agosto de 2012

História de morte


    Sentindo aquela inquietação de espirito, a ansiedade deixava meu dia mais extenso. Impaciente a cada dever cumprido, fitava o relógio rústico pendurado no centro da parede, aflito constatava que o tempo não passava. No decorrer da tarde o calor estendia. Era tão insuportável quanto o meu desejo pelo final desta tortura. Cansado há vários dias sem dormir o desejo pelo final de semana era tão grande quanto à determinação de Victor na perseguição do demônio. Por fim, acabou meu expediente. Liberto de um cárcere inicia os preparativos para adentrar em outro, em que a solidão é meu único carcereiro. Detido, sem sono, varo a madrugada na busca de descobrir o verdadeiro eu. Na falha de minhas constantes buscas me perco em alucinações e possibilidades enquanto preparo em uma caneca, uma bebida quente a base de café solúvel. 
Amanheci debruçado na mesa em cima dum livro autoajuda, segurando a caneca com os resíduos da bebida encrostado em sua borda. Com forte enxaqueca sem lavar a caneca enchi de água e peguei um comprimido para aliviar a dor. À noite mal dormida, somado aos efeitos do comprimido deixaram minha mente ainda mais confusa. Minhas alucinações corroíam minha mente sensata e a loucura tomou conta de meu ser. Fora de controle ansiei por algum meio para de silenciar vozes que passei a escutar incitando-me a retaliação. No colapso de minha extrema loucura talhei minhas orelhas uma de cada vez com a navalha afiada que usava para me barbear. A dor absurda não foi o suficiente para deixar de escutar as vozes que me pedia para cortar minha língua. Então lhes propus um acordo. Cortaria minha língua se elas desaparecessem. Sem esperar pela resposta num súbito surto cortei minha língua e a ofereci como oferenda.
As vozes desejam cada vez mais e iniciei a minha mutilação. Na cabeça passei tão rente a navalha no meu couro cabeludo que ele ficou em carne viva. Minha visão estava vermelha com tanto sangue que escorria transportando para meu próprio inferno. Já me sentia fraco, mas as vozes não paravam de falar, de gritar, de mandar e ódio tornava o combustível de minhas forças. Sentado no chão quase abraçando minhas pernas cortei os dedos dos pés um de cada vez e me livrei da mão esquerda. As vozes por fim cessaram e uma satisfação tomou conta de mim. A fragilidade do meu corpo me derrubou com completo. Em lagrimas devido a grande dor física, fui voltando ao meu estado normal e deparando com a mutilação que cometi. Engasgando com meu próprio veneno, meu estado de sanidade corrompeu a uma ultima loucura e decapitei em com dificuldade o que já havia perdido.

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